Hamilton (2015)

Já falei de filmes e já falei de séries, está na hora de falar sobre musicais, e para começar essa parte escolhi um bem revolucionário (literalmente rs): HAMILTON: AN AMERICAN MUSICAL!!!!!! As letras maiúsculas e os pontos de exclamação representam minha empolgação quando começo a falar de Hamilton porque tá aí uma das coisas mais geniais já criadas. Vamos começar com o enredo, o musical conta a história de Alexander Hamilton (aquele que amamos odiar e odiamos amar) um dos founding fathers dos Estados Unidos. Alexander era um órfão, imigrante, obcecado por escrever e fazer história que chegou aos EUA com 15 anos e a partir daí começou a irritar muita gente… ok essa parte não tá na descrição oficial mas é verdade. Chegando lá ele foi atrás de Aaron Burr (Sir) – que é um dos personagens que eu tenho mais confused feelings about – e acaba conhecendo Lafayette, John Laurens e Hercules Mulligan que assim como ele também desejam viver em uma nação livre da Inglaterra e do possessivo King George. Resumindo um pouco mais, Hamilton então conhece Eliza Schuyler e se casa, se torna o braço direito do futuro presidente George Washington, tem um filho chamado Phillip, luta na revolução americana e AMÉM eles conseguem a independência. Ah isso tudo só no primeiro ato. Até aí ele ainda faz as coisas meio certo mas no segundo ato começa a desandar, um dos detalhes mais importantes dessa história toda é que o cara literalmente escrevia tudo que acontecia na vida dele então na segunda parte acontece o seguinte: Hamilton tem um caso com Maria Reynolds e o marido dela descobre e começa a subornar ele, depois de um tempo Aaron Burr (Sir), James Maddison e Thomas Jefferson – alguns dos inimigos dele – desconfiam de uma parcela de dinheiro que andava sumindo e o acusaram de estar em um esquema de corrupção, porém, em vez de ele apenas negar, Hamilton publica no jornal um artigo de 95 (AHAM) páginas negando ser corrupto e admitindo explicitamente todo o caso com Maria Reynolds, e é assim que surge um dos primeiros sex-scandals da política americana, garantindo que Hamilton nunca se tornasse presidente. Como história é história eu vou dar spoiler mesmo e terminar essa sinopse dizendo que tudo só piora depois disso, o filho dele morre, Eliza queima (literalmente) todas as cartas que Alexander havia escrito a ela, praticamente se apagando da narrativa dele, e Aaron Burr (Sir), agora vice-presidente dos Estados Unidos, se irrita com ele a ponto de desafiá-lo para um duelo de armas (coisa que era comum na época, especialmente em New Jersey já que everything is legal in New Jersey) e é aí que Alexander é assassinado. Olha resumindo tudo acho que é isso.

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Passamos agora para Lin-Manuel Miranda, a mente brilhante por trás do musical: certo dia, de férias no México, Lin se encontra lendo a biografia de Alexander Hamilton escrita por Ron Chernow e é daí que veio a inspiração. A ideia surgiu em 2008 e até chegar na Broadway em agosto de 2015 percorreu um grande caminho. Em maio de 2009 a primeira música foi apresentada na Casa Branca, e desde lá Lin contou com o apoio de diversas personalidades, inclusive o Barak Obama. Um detalhe que ainda não mencionei é o fato de que além de se tratar de uma revolução, Hamilton em si revolucionou a Broadway por ser um musical que mistura hip-hop, rap, soul e r&b, por esse motivo em sua primeira apresentação na Casa Branca Lin brinca:

“Na verdade eu estou trabalhando em um album de hip-hop – um album conceitual – sobre a vida de alguém que encorpora o hip-hop… o ex-secretário do tesouro nacional Alexander Hamilton.”

A verdade é que no começo ninguém acreditava muito na ideia, e talvez se fosse outra pessoa não teria dado certo, mas a genialidade de Lin mistura uma história de séculos atrás com questões contemporâneas como o valor da mulher na sociedade, racismo, a questão dos imigrantes (they get the job done) e corrupção política e transforma em um narrativa mais atual do que imaginado, e por isso se tornou um fenômeno tão grande.

Agora falarei sobre alguns tópicos específicos que na minha opinião merecem destaque:

  • Eliza: apesar do título da obra e da narrativa dela ser em volta de Alexander Hamilton, a verdadeira estrela do show não é ele (na verdade ele irrita a maior parte do tempo), e sim Eliza. Elizabeth Schuyler se apaixona logo de primeira por Alexander, porém mal sabia ela que se casaria com alguém mais obcecado por morrer um mártir do que com a própria vida – várias vezes Hamilton canta sobre pensar tanto sobre a morte que mais parece a ele como uma memória. Não se enganem, ele era sim apaixonado por ela, porém não era seu foco. Na época o divórcio não era muito aceito na sociedade, por isso depois de Alexander a negligenciar, trair, e incentivar o filho deles a um duelo que causou sua morte, Eliza acaba por queimar todas as cartas que havia recebido do marido, antes e depois do casamento, e praticamente se apaga da sua história, mas ainda assim permanece ao seu lado como mulher e depois de um tempo acaba o perdoando. Um fato interessante é que apesar de na época o homem ser considerado o líder de uma família, não é isso que transparece no musical, Eliza sempre trata Hamilton como sendo “seu” e tem mais poder sobre ele do que o contrário, mostrando-se a verdadeira chefe da família. Porém é no final, mais especificamente na última música que Eliza se torna a verdadeira heroína: após a morte de Alexander,  ela se coloca de volta na narrativa, entrevista todo os soldados que lutaram ao lado dele e conta suas histórias, arrecada fundos em D.C. para o Washington Monument e o mais incrível de tudo, Eliza cria o primeiro orfanato em New York (lembrem-se que Hamilton era órfão) e ajuda a criar centenas de crianças, mantendo assim o tão desejado legado de seu marido, e o dela.

    “E por igualar as narrativas de Eliza às de Alexander, ele (Lin-Manuel Miranda) reconhece as mulheres que ajudaram a construir o país ao lado dos homens. Você acaba se perguntando se o “Hamilton”do título se refere apenas a Alexander ou a Eliza também.”

     

  • Schuyler Sisters (e Angelica/Hamilton): se vocês acham que Eliza é a única mulher empoderada do musical pense de novo. Angelica, Eliza and Peggy WORK eram filhas de Phillip Schuyler, que foi senador de New York e general na Revolução Americana, e ah, possuía muito dinheiro e status, o que tornava suas herdeiras muito atraentes aos homens. Na música cantada pelas três irmãs (The Schuyler Sisters), Angelica (minha personagem favorita) conversa com Aaron Burr e diz o seguinte:

    “Tenho lido Common Sense de Thomas Paine, então homens pensam que sou intensa ou insana. Você quer uma revolução? Eu quero uma revelação, então escute minha declaração: ‘Nós consideramos essas verdades como auto-evidentes, que todos os homens são criados iguais’* então quando conhecer Thomas Jefferson vou convencê-lo a incluir mulheres na continuação.”                                                                                                                                                                           *essa frase foi escrita por Thomas Jefferson e está na Declaração de Independência.

    Durante o musical inteiro, além de mostrá-las como bem instruídas e por dentro da situação política nacional, as Schuyler Sisters representam também a pequena parte da sociedade que se considerava feminista durante o período. Focando mais especificamente em Angelica vem uma das partes mais loucas do musical: a personagem é também apaixonada por Hamilton (olha o mel do cara). Na realidade Alexander conhece Angelica primeiro e os dois entram em uma conversa sobre qual dos dois é menos satisfeito (vai entender) e percebe-se que alguma coisa está surgindo ali, porém, ela percebe que Eliza, sua irmã, também se apaixona por ele e acaba apresentando os dois e ficando de lado, pois sempre dizia “eu escolheria a felicidade dela em vez da minha todas as vezes”. Angelica pode ser considerada a mais leal das personagens, depois de se casar e se mudar para a Inglaterra, mantém contato com a irmã e o cunhado por cartas e se mostra uma verdadeira amiga, porém o teor das cartas com Alexander mostram que os sentimentos que possuía por ele não haviam diminuído, e que talvez ele também sentisse algo por ela. Até certo ponto Angelica considera ela mesma igual a Hamilton: impossível de se satisfazer, porém, a partir do momento da traição ela volta aos Estados Unidos e admite (em uma música que foi, infelizmente, cortada do musical) que estava em um casamento sem amor e vivia pelas cartas dele, porém estava de volta e ele não era a causa disso, nesse momento ela o pede para colocar tudo que tiveram de lado e pela primeira vez fala “Você nunca estará satisfeito” sem se comparar a Alexander. Apesar de tudo, no final, ao lado de Eliza, Angelica ajuda a contar a história de Hamilton, e quando morre é enterrada ao seu lado.

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  • King George e suas músicas: algumas das músicas mais geniais do musical são cantadas pelo do Rei da Inglaterra, o personagem é retratado de maneira cômica porém tirânica, e as analogias das músicas dão a impressão de que ele fala com uma pessoa (a primeira vez que que escutei e não conhecia a história achei que ele falava com uma mulher ou algo do tipo) quando na verdade se trata de uma nação inteira. Em You’ll Be Back por exemplo,  ele manda uma mensagem ao povo americano que lutava por independência dizendo que achava que eles possuíam um contrato e que no final eles acabariam cedendo, até porque se chegasse a certo ponto, ele mataria seus amigos e famílias…. para lembrá-los de seu amor. Em What Comes Next, já depois de os EUA terem alcançado a liberdade, ele pergunta o que vem agora, se os americanos acham que sobreviver sozinhos é fácil e ainda declara ao novo governo independente que quando o povo se rebelar e disser que os odeiam, não corram de volta para ele. Já I Know Him vem logo depois que o primeiro presidente americano, George Washington, renuncia o posto e King George é avisado que John Adams será o próximo, nessa última música ele reflete sobre o fato de eles trocarem de presidente e diz que não sabia que isso podia acontecer, ainda fala que perto de Washington todos os outros são pequenos, então será engraçado assistir à população destruir John Adams. As três músicas possuem a mesma melodia mas cada uma mostra uma faceta diferente desse rei tão excêntrico, e quem as interpreta no CD é o primeiro ator que fez o papel na Broadway: Jonathan Groff, talvez alguém o reconheça como o Jessie de Glee.

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  • Troca de atores: eu sempre considerei ser ator ou atriz de teatro musical uma das profissões mais difíceis pois é preciso decorar uma peça inteira, todas as músicas, coreografias e falas e apresentá-las ao vivo sem ajuda nenhuma. Aí conheci Hamilton e cheguei à conclusão de que podia ser pior. Se vocês acham fazer um papel difícil, pensem só os atores de Hamilton que tem que fazer dois, é isso mesmo, durante a peça os atores que interpretam John Laurens, Lafayette, Hercules Mulligan e Peggy Schuyler durante o primeiro ato trocam de papel para o segundo, transformando-se em Phillip Hamilton, Thomas Jefferson, James Madison e Maria Reynolds, respectivamente. Essa troca é tão bem formulada que na verdade parecem realmente pessoas diferentes, e para aumentar ainda mais a genialidade da coisa, durante a primeira música os personagens contam a história de Alexander Hamilton e dizem que parte tiveram nessa narrativa, primeiramente Lafayette/Jefferson e Mulligan/Madison dizem que lutaram com ele o que tem duplo significado já que Lafayette e Mullingan lutaram ao lado de Hamilton durante a revolução enquanto Jefferson e Madison lutaram contra ele no segundo ato. Já Laurens/Phillip diz que morreu por ele, sendo que Laurens morreu na revolução e Phillip em um duelo que aceitou para defender a honra do pai. As Schuyler Sisters por sua vez contam que o amaram, porém Peggy não se encaixaria nessa categoria se não fosse o fato de que a atriz interpreta no segundo ato Maria Reynolds, a amante de Alexander. E esse é apenas um dos fatos pelos quais Hamilton é considerado uma obra de gênio.

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  • Influência: o musical obteve um reconhecido maior do que o imaginado, o que o levou a alcançar o recorde de 16 indicação ao Tony (que é o Oscar da Broadway) e levou para casa 11 prêmios e se tornou referência para diversas pessoas. Uma coisa que sinto ser importante de mencionar é que o elenco de Hamilton é um dos mais diversos já existente, isso se dá pelo fato de que ao procurarem atores para os papéis, os produtores focaram em pessoas “non-white“, o que gerou algumas críticas que por sua vez não mudaram o conceito dos produtores de continuar com um elenco multi-racial e diverso. Além disso, os atores do musical estão constantemente engajados em questões políticas, um dos fatos mais marcantes acontecem em 2016, quando o Vice-Presidente eleito, Mike Pence, compareceu a um dos shows e o ator Brandon Dixon, que faz agora o papel de Aaron Burr, dirigiu a palavra a ele no final da peça dizendo o seguinte:

    “Nós, senhor, somos a América diversa, que está alarmada e ansiosa que sua nova administração não proteja nosso planeta, nossos filhos, nossos pais, ou não nos defenda ou mantenha nossos direitos inalienáveis. Nós realmente esperamos que este espetáculo tenha inspirado o senhor a manter nossos valores americanos e a trabalhar em nome de todos nós. Todos nós”

Acho que ficou um pouco claro que sou meio obcecada por Hamilton, e não espero que todos sejam, porém acredito que apesar de nem todos curtirem musicais vale a pena dar uma chance a uma das maiores obras de arte contemporâneas. Sim, são muitas músicas pois assim como Alexander Hamilton, Lin-Manuel Miranda também escreve como se seu tempo estivesse acabando, mas peço que tentem pois são músicas como quaisquer outras que se escuta no rádio, na verdade mil vezes mais inteligentes que algumas, o fato de fazerem parte de um musical não as torna chatas. Pra quem achar que não vai gostar das musicas originais da Broadway recomendo a Hamilton Mixtape, um CD que conta com cantores como Sia, John Legend, Wiz Khalifa, Kelly Clarkson, Alicia Keys e Usher interpretando algumas das músicas do musical. Vou deixar aqui os links pra quem quiser escutar as músicas e quem gostar e quiser assistir pode vir falar comigo que a gente dá um jeito ;).

LINK ORIGINAL BROADWAY CAST RECORDING

LINK HAMILTON MIXTAPE

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